Seminário da IALA em Gijón: o que a comunidade VTS mundial colocou na mesa
A IALA reuniu operadores e especialistas de VTS de vários países para ouvir o que realmente acontece na sala de controle — e transformar isso em programa de trabalho. Acompanhamos o encontro de perto.
Entre 2 e 4 de junho de 2026, a IALA reuniu em Gijón, na Espanha, cerca de uma centena de profissionais de VTS de diferentes países. O evento — Seminar on VTS Experiences and Challenges — foi organizado em parceria com o Centro de Seguridad Marítima Integral Jovellanos e tinha um objetivo declarado que merece atenção: reunir perspectivas de primeira mão para orientar o trabalho futuro do Comitê de VTS da IALA.
Nossa equipe acompanhou o seminário para trazer as discussões ao contexto brasileiro. Este texto resume a estrutura do encontro e o que ela revela sobre a direção que a normatização internacional do VTS está tomando.
Um seminário desenhado de baixo para cima
O formato chama atenção. Em vez de apresentar diretrizes prontas a uma plateia, a IALA montou três dias para escutar quem opera — e converter essa escuta em itens de trabalho.
A convocação foi explícita nesse ponto: o público-alvo eram operadores e supervisores, e os provedores de VTS foram encorajados a facilitar a participação de seu pessoal de linha de frente. Não era um encontro de gestores falando sobre operação; era um encontro de operação falando por si.
Como o seminário foi estruturado
Dia 1 — o que existe hoje
Abertura e contextualização, seguidas de três blocos de experiências atuais:
operacionais, de equipamento e de treinamento.
Dia 2 — o que vem pela frente
Os mesmos três eixos, agora voltados aos desafios futuros, encerrando com grupos de
foco dedicados a Operações, Equipamento e Treinamento.
Dia 3 — das ideias às propostas
Três sessões de conversão: transformar o que foi levantado em propostas concretas
para o programa de trabalho do Comitê.
Por que essa divisão em três eixos importa
Operações, equipamento e treinamento não são categorias administrativas — são os três pontos em que um serviço de tráfego falha ou se sustenta. E a escolha de tratar cada um primeiro no presente e depois no futuro tem uma lógica que vale copiar em qualquer diagnóstico de central:
- Operações — o que os procedimentos preveem versus o que a sala de controle realmente faz quando o tráfego aperta
- Equipamento — o que os sensores e sistemas entregam versus o que a operação precisaria enxergar
- Treinamento — o que a formação certifica versus a competência exigida no turno real
Separar presente e futuro evita a armadilha mais comum nesse tipo de discussão: misturar o problema que existe hoje com a tecnologia que talvez o resolva amanhã, e terminar sem resolver nenhum dos dois.
O sinal mais relevante: a norma vai atrás da operação
O ponto de fundo do seminário é institucional. A IALA declarou que as contribuições coletadas apoiariam a identificação de novos itens de trabalho e a formação do próximo programa do Comitê de VTS, para que a documentação continue refletindo a realidade operacional.
Em outras palavras: as próximas recomendações e diretrizes internacionais de VTS estão sendo construídas a partir do relato de quem senta na posição. Para quem opera, isso significa que participar desses fóruns deixou de ser protocolo e passou a ser influência real sobre a norma que vai reger o próprio trabalho.
O que isso significa para o Brasil
Três leituras práticas:
1. A pauta internacional já é a nossa pauta
Os temas em discussão — interação com tráfego cada vez mais automatizado, evolução dos sensores, formação e revalidação de competência — não são preocupações de países distantes. São exatamente as questões que aparecem em qualquer projeto de implantação ou modernização de VTMIS no Brasil.
2. Participação regional ainda é pequena
A América Latina segue sub-representada nesses espaços. Isso tem custo: a diretriz é escrita a partir de realidades operacionais que nem sempre se parecem com as nossas — canais com forte influência de maré e corrente, praticagem com papel central, arranjos institucionais próprios.
3. Vale acompanhar o programa de trabalho
O que sair desse seminário tende a aparecer, em alguns anos, como recomendação ou diretriz — e depois como exigência em auditoria. Quem acompanha o processo tem tempo de preparar procedimento e treinamento; quem só encontra o documento pronto, corre atrás.
O que trouxemos de Gijón
A impressão mais forte foi de convergência: apesar das diferenças de porte, tecnologia e arranjo institucional, os problemas relatados se repetem de um país para outro — carga de trabalho no turno, distância entre o manual escrito e a prática, dificuldade de manter competência atualizada, e a pressão crescente por integrar dados de origens cada vez mais diversas.
Se o problema é comum, a solução tende a ser compartilhável. É exatamente isso que justifica trazer para o Brasil o que se discute nesses fóruns — e levar para lá o que aprendemos operando aqui.
Quer trazer as boas práticas internacionais para a sua operação?
A VTS Brasil apoia portos, terminais e autoridades na revisão de procedimentos, treinamento e conformidade com as diretrizes da IMO e os padrões da IALA.
Falar com a VTS BrasilFontes
- IALA — Seminar on VTS Experiences and Challenges, Gijón, Espanha, 2 a 4 de junho de 2026 (events.iala.int/vts-seminar)
- Centro de Seguridad Marítima Integral Jovellanos — divulgação e programa do seminário
- IMO — Resolução A.1158(32), Guidelines for Vessel Traffic Services (2021)
Publicado por VTS Brasil.
Este texto tem finalidade informativa e não substitui a leitura dos documentos originais
nem a consulta às normas nacionais aplicáveis.